A Voz de Hind Rajab | 2026

Docuficção de Kaouther Ben Hania transforma uma ligação de
socorro em denúncia urgente do massacre em Gaza

Nunca é tarde para o cinema chamar a atenção para os horrores da guerra. Praticamente todos os anos, alguma obra sobre o tema chega às telas. Os conflitos mais amplamente reconhecidos como devastadores na história da humanidade pertencem ao passado — as duas Guerras Mundiais, sendo a Segunda marcada pelo lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. A Voz de Hind Rajab é uma docuficção que traz à luz um recorte dramático de uma guerra palpável e dilacerante ainda em curso entre Israel e o Hamas, iniciada em outubro de 2023.

O longa, escrito e dirigido pela cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, nos conduz ao cotidiano de um grupo de pessoas responsáveis pelo resgate de sobreviventes na Faixa de Gaza. A partir de situações reais, acompanhamos os funcionários do Centro do Crescente Vermelho da Cisjordânia em suas rotinas de atendimento a chamadas telefônicas de emergência, que envolvem desde o gerenciamento de crises até o planejamento de buscas e operações de resgate.

Hania constrói um cenário extremamente fidedigno do ambiente e das pessoas que coordenam as negociações de socorro às vítimas. Essa sensação de autenticidade é reforçada pelo uso de chamadas de voz reais e, sobretudo, pela mescla, nos momentos finais do filme, de imagens documentais com cenas encenadas. Quando compreendemos que as vozes ouvidas pertencem a pessoas reais, A Voz de Hind Rajab ganha uma nova dimensão: a obra se adensa e se aproxima, de forma ainda mais humana e devastadora, das situações extremas de perigo e desespero.

Filmado inteiramente em um único ambiente, com o tempo correndo quase sem elipses ou recortes temporais, o espectador acompanha, minuto a minuto, os caminhos e percalços envolvidos na tentativa de salvar vidas durante uma noite de terror em Gaza. A proposta remete à dinâmica de filmes como Locke (2013), de Steven Knight, no qual nunca vemos quem está do outro lado da linha telefônica e a narrativa se limita a uma única locação. O longa também dialoga com o documentário recente Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe (2024), dirigido pela jornalista iraniana Sepideh Farsi, que, a partir de diversas videochamadas, acompanha de maneira emocionada e afetiva os relatos e os últimos passos de uma jovem palestina em Gaza.

Diante de acontecimentos brutais, por vezes o cinema também precisa ser brutal. A decisão da diretora de estruturar a narrativa a partir dos momentos finais da vida de uma menina de seis anos — presa em um carro, acuada, cercada pelos corpos e pelo sangue de seus familiares mortos — pode ser interpretada como uma forma de exploração da dor. Hania, no entanto, transforma essa exposição em um gesto político: ao reforçar a injustiça do massacre, ela sintetiza, na voz angustiada da pequena Hind, as milhares de crianças e famílias mortas por Israel.

Quando os atendentes do Crescente Vermelho se afastam do telefone, o filme revela o cansaço e o desgaste emocional de lidar com a situação de Hind, cujo cenário se agrava a cada nova ligação: tanques se aproximam, tiros são ouvidos, a fome e a sede se intensificam, enquanto persiste a vontade desesperada de sobreviver. Os homens entram em crise, discutem, choram. Chegam até a disputar uma partida de videogame como tentativa de aliviar a tensão e recuperar o equilíbrio emocional necessário para seguir se comunicando racionalmente diante dos inúmeros obstáculos impostos à rota do veículo encarregado de encontrar Hind.

A Voz de Hind Rajab opta por não se limitar à exposição do horror vivido pela menina. O filme também recorre a imagens de arquivo e fotografias de Hind, enfatizando, mais uma vez, o ser humano cheio de vida e vulnerabilidade que está prestes a ser violentamente interrompido. Como último recurso para obter autorização para o resgate, a equipe decide divulgar as gravações das ligações na internet, apostando no choque como forma de mobilização. É por esse caminho que se revela, com clareza, a intenção da diretora.

Vivemos tempos sombrios — seja na Faixa de Gaza, seja diante do avanço de um autoritarismo predatório, impulsionado pelos Estados Unidos, ou ainda pelo gosto amargo de outras guerras que invadem países independentes e ceifam vidas por interesses meramente econômicos. Um cinema que observa e não se conforma, age e constrói novas pontes de debate não é apenas necessário, é essencial.

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