Sirāt | 2025

Atravessar o deserto

“Numa esquina qualquer, o sentimento do absurdo pode bater no rosto de um homem qualquer. Tal como é, em sua nudez desoladora, em sua luz sem brilho, esse sentimento é inapreensível” – Albert Camus, O Mito de Sísifo.

Ao longo dos milênios de existência humana construímos edificações. Não são elas apenas as paredes de uma casa ou de um prédio, fruto das descobertas tecnológicas, mas também os muros da moralidade, valores que marcam uma época, um lugar, um comportamento. Formam-se os parâmetros de como julgamos o certo e o errado, o justo e o injusto, o belo e o feio. Desde sempre tentamos desacelerar os movimentos caóticos da vida, criar padrões para torná-la mais palpável, sólida, para assim termos causas a defender, fronteiras a proteger, costumes a manter, políticas a organizar, revoluções a conquistar.

Parafraseando o filósofo argelino Albert Camus, quando viramos uma esquina qualquer e damos de frente com o absurdo, tudo isso que buscávamos racionalizar desmorona. A crise existencial nasce da percepção de que não há sentido maior, não há verdade absoluta, não há futuro. Lançados à nossa própria sorte, a angústia permanece, pois é intrínseca ao ser humano. A vida são conexões inapreensíveis em sua totalidade, que, ao mesmo tempo, formam a subjetividade de cada um e o mundo exterior que habitamos e nos molda. Portanto, o caos é inerente e o que fazemos são subterfúgios, acalantos, hipóteses, indeterminações.

Foi diante da inexplicável dor de sua existência que Zaratustra, célebre personagem de Nietzsche, precisou subir a montanha para achar a resposta, ou melhor, a não-resposta. E, quando desceu, contou a todos que aqueles que não enxergam sua própria potência não seriam capazes de viver o presente. Sua peregrinação não achou um sentido, mas transformou-o na criação constante de agoras, de intensidades, de vida. Zaratustra precisou olhar para o abismo para valorizar o lado dionisíaco de ser, a irracionalidade inevitável que nos une. É este o absurdo do qual escreveria Camus, o Nada no âmago da condição humana, a partir do pensamento de Jean-Paul Sartre.

A filosofia existencialista, suas influências e ramificações, são, certamente, a chave de leitura que escolhemos para Sirāt, longa-metragem dirigido por Oliver Laxe. Se Zaratustra renasce no cume, ou, então, os personagens de Camus precisam se reencontrar a partir do sentimento de solidão e estrangeirismo, Luis (Sergi Lópes), o pai desesperado do filme, cruza o deserto com suas dores mais profundas para entender que nada daquilo está sob seu controle, ou de qualquer outra pessoa.

O cenário desértico é o sul do Marrocos, onde algumas pessoas levantam uma parede de auto-falantes potentes e preparam um rave. Em volta só a poeira e a imensidão das rochas que os observam, filmadas como se realmente tivessem olhos e ouvidos, vibrando a cada grave das músicas. Enquanto uma multidão dança em estado de transe, Luis e Esteban (Bruno Núñez Arjona), seu filho mais jovem, perambulam em busca de Mar, a primogênita que está desaparecida há meses. Desconectados daquele contexto, os dois parecem cansados, mas obstinados, principalmente Esteban, que incentiva o pai e tem claras esperanças de encontrar a irmã.

Laxe e Mauro Herce, responsável pela fotografia, apresentam os primeiros vinte minutos em tom idílico, estabelecendo uma harmonia entre o espaço e os corpos que se movimentam livremente diante da câmera. As cores amarronzadas tomam conta de tudo pela poeira, mas ninguém ali parece se importar. A intensa música que os embala está aquém do sofrimento do pai e do filho. Tem-se já aqui um dilema existencial complexo: o mundo não compreende nossas dores. É paradoxal pensar que é isso que nos separa em isolamento íntimo e inevitável, ao passo que também nos coloca sob a mesma angústia, algo que ficará claro no ato final.

No segundo dia de festa a sintonia é quebrada, quando um comboio do exército chega ao local e manda todos irem embora. Há uma breve contextualização política: do “lado de fora” acontece uma guerra mundial. Esta interferência elucida a tentativa falida do ser humano em racionalizar suas relações. Não nos faltam exemplos de conflitos atuais entre nações sedentas pelo domínio do capital, como sempre houve em outros tempos e de outras formas.

Escoltados pelos soldados, os carros seguem em retirada, até que alguns resolvem desafiar a ordem e desviar o caminho em disparada. Em um segundo Luis tem que tomar a decisão: seguir o exército ou ir junto com os rebeldes? Esteban insiste que o pai siga a debandada porque sabe que estão a caminho de outra rave no deserto onde a irmã pode aparecer. É o que ele faz em um ato impulsivo. Eis o exemplo máximo do que é o peso de nossa liberdade, algo que tanto escreveu Sartre, por exemplo, e que em Sirāt levará os personagens e o espectador à consciência do absurdo da vida, seguindo como um roadmovie à beira dos abismos áridos rumo a Mauritânia.

“Há uma ponte chamada Sirāt que liga o céu e o inferno. Aqueles que a atravessam são avisados que sua passagem é mais estreita que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada” – letreiro no começo do filme.

O grupo fugitivo é formado por dois caminhões e o carro de Luis com Esteban, todos entregues ao acaso e às intempéries do perigoso caminho, como analogia à imprevisibilidade da existência. Há de se destacar a escolha de Laxe por um elenco de variadas etnias. Ou seja, reforça-se a relação paradoxal do que nos separa e nos une. Fronteiras, idiomas, costumes, aparências: nada disso foge ao absurdo. Steff (Stefania Gadda), Josh (Joshua Liam Herderson), Bigui (Richard Bellamy), Jade (Jade Oukid) e Tonin (Tonin Janvier) são pessoas diferentes, com histórias que parecem calejadas, que já habitam aquele ambiente com perspicácia, pulando de festa em festa. Mesmo assim, a jornada que os aguarda também lhes será surpreendente, sendo Luis convertido em uma espécie de guia espiritual para um salto de fé no absurdo.

Neste sentido, há uma lição que nos remete aos conceitos de Søren Kierkegaard, muitas vezes chamado de “pai do existencialismo”. A vida de rebeldia e prazer nas raves ainda não é a potência máxima de ser, porque este estágio da existência individual ainda é a face do desespero. Falta-lhes a fé no agora, algo que para o filósofo dinamarquês só se conseguiria a partir da crença no impossível, na vida enquanto elemento superior indecifrável. É o que representa uma das cenas finais de Sirāt, com os passos decididos de Luis para fora da angústia que vivera nos últimos dias, e os que restaram lhe seguindo de olhos fechados.

Certamente, há inspiração de Laxe também na filosofia islâmica, visto que o próprio conceito de Sirāt como travessia existencial tem raízes muçulmanas. Antes de Kierkegaard, o filósofo persa Al-Ghazali já havia pensado a existência a partir do subjetivismo, ao sistematizar o sufismo, uma leitura mística da experiência islâmica. Para ele, viver é a prática do presente e a superação daquilo que nos é incompreensível pela ligação divina, algo que podemos aproximar a ideia de salto de fé. Em ambos o valor da experiência vivencial é maior do que a conceitual e a errância (mesmo dolorosa) é um processo fundamental para a evolução do Ser. 

O cineasta é eficiente em aliar esse arcabouço filosófico com a forma de seu filme, fazendo da angústia o fio condutor no percurso de seus personagens. As cenas são construídas a partir de expectativas e rompimentos, coisas prestes a acontecer, mas que não se consolidam; e, de outro lado, o inesperado que desestabiliza quando menos se espera. Ora os mantimentos e o combustível estão prestes a acabar, ora a cachorrinha Pipa está para morrer. Os veículos correm em alta velocidade no deserto pela noite ao som da música eletrônica envolvente de Kangding Ray: quase sempre se espera uma tragédia. São exatamente nessas situações limítrofes que percebemos o quanto não temos controle do que nos acontece, e isso é existir.

A densidade conceitual somada à tensão imagética e sonora faz de Sirāt um filme indigesto, remetendo às polêmicas obras de Gaspar Noé,Michael Haneke e Lars von Trier. Não há floreios da vida humana, pelo contrário, ela é crua como enxerga o existencialismo. A obra que concorre ao Globo de Ouro de melhor filme internacional, competindo com Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, prefere escavar até as profundezas dos sentimentos humanos para evidenciar a aceitação do absurdo como único meio possível para viver, quando nada mais faz sentido na relação Eu-Outro, mesmo que nos esforcemos todos os dias em fechar tudo com o selo da razão.

No fim estamos todos entrelaçados por uma gama infinita de acasos que nos afetam, que podem nos mover, paralisar, explodir, implodir. A vida está em cada escolha. Esta feita, tudo muda ao redor, e é com isso que temos que lidar. As pessoas, as coisas, os lugares, nada nos pertence. O que temos ao virar a esquina é a liberdade que nos aflige e a consciência que é só nossa, de mais ninguém. Descobrindo isso nos tornamos o Zaratustra de Nietzsche, ou o Sísifo feliz de Camus, passamos, então, a viver na potência do presente, pois ele é o próprio ato criativo da vida.

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